Falta de cadeias de valor estruturadas torna agricultura angolana insustentável, alerta consultor

Imagem: DR

As cadeias de valor da agricultura angolana “ainda não estão verdadeiramente estruturadas”, o que torna o sector “insustentável”. A afirmação é do consultor e gestor agrícola Paulo Fardilha, da Global Wide Angola, que defende ser urgente mais investimento privado, conhecimento técnico e projectos capazes de ligar produção e mercado para transformar o sector.

Em entrevista ao jornal Valor Económico, o responsável apontou a excessiva dependência do Estado como o principal entrave ao desenvolvimento agrícola do país. Segundo Paulo Fardilha, os apoios públicos “muitas vezes não chegam a tempo” e os agricultores continuam sem escoamento nem mercado garantido para aquilo que produzem. “A agricultura, como a maior parte da economia em Angola, ainda está muito dependente do apoio do Estado, está muito centralizada”, afirmou.

Para o consultor, a solução passa pela diversificação económica assente em investidores privados, angolanos e estrangeiros, capazes de fazer nascer pequenas e médias empresas e “empresas âncora” que sirvam de exemplo ao sector. Só assim, disse, será possível criar uma cadeia de valor completa, da produção à eventual exportação, “apanhando todo o processo”.

Paulo Fardilha alertou ainda para a concorrência entre os preços dos produtos agrícolas nacionais e os dos importados, defendendo que cabe ao Estado regular esse mercado para permitir o desenvolvimento da produção interna. Sem essa regulação e sem uma “verdadeira diversificação”, sublinhou, os grandes negócios de abastecimento continuarão reféns do sector público, dificultando o surgimento de cadeias de valor privadas fortes e sustentáveis.

Questionado sobre a falta de vias de acesso, que leva parte da produção agrícola a estragar-se no campo por falta de escoamento, o gestor reconheceu o problema, mas destacou o esforço do país na captação de investimento estrangeiro e no desenvolvimento de plataformas logísticas, citando como exemplo o Corredor do Lobito.

Paulo Fardilha apontou, contudo, a agro-indústria como um sector “ainda muito incipiente” em Angola. Na ausência de indústrias capazes de transformar grandes volumes de produção, alertou, os agricultores continuarão sem capacidade de escoar aquilo que produzem. “Se não houver agro-indústrias, não serve nada produzir. Vai vender a quem?”, questionou.

O consultor identificou também um défice de confiança entre a banca comercial e os produtores agrícolas na aprovação e execução de projectos, que frequentemente ficam por concluir. Para Paulo Fardilha, falta ao país consultoria especializada em agricultura que dê garantias tanto aos promotores como às instituições financeiras. “Os agricultores também não sabem elaborar projectos, porque não têm de saber (…) A banca, por sua vez, também não percebe de agricultura; percebe de emprestar dinheiro”, afirmou, defendendo maior assessoria técnica de ambos os lados, bem como o reforço da formação técnica e profissional no sector.

Com cerca de 90% das explorações agrícolas do país no sector familiar, Paulo Fardilha considera indispensável uma transformação gradual desse modelo, com o surgimento de pequenas e médias empresas agrícolas que, com o tempo, desenvolvam as suas próprias agro-indústrias. Traçou um paralelo com Portugal, onde, segundo referiu, a agricultura familiar “praticamente desapareceu” ao longo das últimas décadas, restando hoje apenas cerca de 5% da população ligada ao sector.

O responsável da Global Wide Angola mostrou-se, ainda assim, optimista quanto ao potencial do país, defendendo que Angola reúne condições para garantir a sua segurança alimentar e, a prazo, tornar-se exportadora de produtos agrícolas, ao contrário da Europa, uma vez que praticamente todo o território permite produção ao longo do ano. Fez também referência aos recentes acordos de cooperação agro-pecuária entre Angola e o Brasil, considerando que o país pode replicar, com as devidas adaptações, o modelo de desenvolvimento acelerado da agricultura brasileira. “Se Angola quiser, daqui a dez anos pode estar noutro patamar”, afirmou.

Sobre os riscos de os grandes projectos, angolanos e brasileiros, não avançarem, o consultor escusou-se a comentar questões de natureza política, remetendo o sucesso dessas iniciativas para a “vontade política” e para a criação de condições que atraiam investimento estrangeiro.

24/09/2026