Quando a fé ocupa o lugar deixado pelo Estado

A falta de saúde, empregos, escolas de qualidade e mecanismos públicos de protecção, faz crescer a procura de soluções sobrenaturais

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Angola tem mais de 150 mil ministros de culto e apenas 7.395 médicos. Há um pastor para cada 258 habitantes, enquanto milhares de cidadãos continuam sem acesso regular a cuidados de saúde. Estes números não descrevem apenas a relação entre religião e medicina: revelam onde os angolanos estão a procurar as respostas que o Estado, a economia e a sociedade não conseguem oferecer.

Esta reflexão parte do artigo «Angola tem um pastor para cada 258 habitantes e um médico para cada 10.000», de José Gonga, publicado pelo jornal Expansão, em 21 de Agosto de 2026, com dados do Instituto Nacional dos Assuntos Religiosos e do Anuário Estatístico da Saúde de 2023.

O problema não é a existência de muitos pastores. A liberdade religiosa é um direito constitucional e numerosas igrejas prestam apoio espiritual, criam redes de solidariedade e acolhem pessoas que não encontram resposta noutras instituições.

O problema começa quando a fé deixa de ser uma dimensão espiritual da vida e passa a funcionar como substituto da medicina, do emprego, da protecção social, da justiça e da esperança colectiva.

A proliferação de igrejas não é apenas um fenómeno religioso. É também um indicador económico e social. Onde faltam hospitais, empregos, escolas de qualidade e mecanismos públicos de protecção, cresce a procura de soluções sobrenaturais. Quanto mais incerto é o presente e mais inacessível parece o futuro, maior é o mercado para quem promete cura, prosperidade, casamento, emprego ou libertação espiritual.

A pobreza não retira às pessoas apenas rendimento: reduz-lhes também a capacidade de esperar. Uma família sem dinheiro para consultas ou medicamentos torna-se mais vulnerável à promessa de uma cura imediata. Um jovem desempregado e sem perspectivas pode descobrir na abertura de uma igreja uma actividade com reduzidas barreiras de entrada, autoridade instantânea e possibilidade de rendimento.

Forma-se, assim, uma economia da aflição: o sofrimento transforma-se em procura, a promessa em produto e a contribuição religiosa em preço. Nem todas as igrejas participam deste modelo, mas a ausência de fiscalização permite que operadores predatórios se confundam com comunidades religiosas legítimas.

O prejuízo económico não se limita ao dinheiro entregue em dízimos e ofertas. Recursos de famílias pobres deixam de financiar alimentação, educação, habitação, cuidados médicos ou pequenos negócios. Há também perda de produtividade quando doenças tratáveis se agravam porque o hospital foi substituído pelo altar. Somam-se o abandono de tratamentos, o endividamento e a frustração causada por promessas que nunca se cumprem.

A nova legislação pode identificar os ministros de culto e responsabilizar abusos. Contudo, cobrar uma taxa anual de 17 mil kwanzas e exigir formação em Teologia não resolverá, por si só, o problema. Uma carteira profissional pode organizar o sector, mas também pode tornar-se apenas numa fonte de receitas ou numa autorização administrativa para continuar a explorar pessoas.

A resposta exige transparência financeira, fiscalização, punição da fraude e combate ao exercício ilegal da medicina. Mas exige sobretudo hospitais acessíveis, educação crítica, empregos dignos, protecção social e instituições públicas merecedoras de confiança.

Este fenómeno não terminará por decreto. Começará a perder força quando os cidadãos deixarem de depender do milagre como principal política de sobrevivência. Não será quando os angolanos perderem a fé, mas quando deixarem de ser obrigados a procurar nela todas as respostas que o Estado, a economia e a sociedade não conseguiram oferecer.

21/08/2026