Mais de 4.100 angolanos compraram habitação em Portugal enquanto o sonho da casa própria continua distante no mercado nacional
A dificuldade de acesso ao crédito à habitação em Angola está a levar cada vez mais cidadãos a procurar soluções fora do País. Em 2025, os angolanos adquiriram 4.145 imóveis em Portugal, um crescimento de 2,2% face ao ano anterior, consolidando-se como o segundo maior grupo de compradores estrangeiros naquele mercado, atrás apenas dos brasileiros.
Embora a estabilidade, a segurança, a qualidade dos serviços de saúde e a educação dos filhos sejam factores frequentemente apontados para justificar este movimento, especialistas e compradores admitem que existe uma razão igualmente determinante: para muitos angolanos, comprar casa em Portugal tornou-se mais fácil, mais rápido e, em alguns casos, mais barato do que adquirir uma habitação em Angola.
Dados do Banco de Portugal revelam que os estrangeiros representaram 28% das compras de habitação no país europeu em 2025. Entre eles, os angolanos realizaram mais de quatro mil transacções, pagando em média 244 mil euros por imóvel.
O problema começa no crédito
Apesar dos esforços do Banco Nacional de Angola (BNA) para estimular o crédito à habitação através do Aviso n.º 9, que estabelece uma taxa máxima de 7%, o acesso ao financiamento imobiliário continua a ser um dos principais obstáculos para as famílias angolanas.
Na prática, os bancos comerciais mantêm critérios considerados excessivamente conservadores. Além das exigências relacionadas com rendimentos e garantias, persistem problemas estruturais ligados ao registo predial, escrituras e formalização dos imóveis, dificultando a constituição de hipotecas e aumentando o risco das operações para as instituições financeiras.
O resultado é um mercado onde milhares de famílias com capacidade de pagamento continuam sem conseguir obter financiamento para comprar casa.
Em contraste, os bancos portugueses disponibilizam crédito à habitação com taxas de juro que actualmente variam entre 3% e 3,5%, significativamente abaixo dos custos praticados em Angola. Além disso, os processos de avaliação de risco, registo e contratação tendem a ser mais previsíveis e transparentes.
Casa em Portugal antes de casa em Angola
O fenómeno já não está limitado às elites económicas.
Se há uma década a compra de imóveis em Portugal era predominantemente associada a empresários e altos funcionários públicos, hoje a realidade inclui trabalhadores da classe média, funcionários públicos, técnicos especializados e quadros de empresas privadas.
Muitos recorrem a poupanças próprias, venda de património em Angola ou mesmo empréstimos locais para suportar a entrada inicial exigida pelos bancos portugueses.
Outros conseguem financiamento com base nos rendimentos obtidos em Angola, desde que cumpram os requisitos de conformidade bancária e obtenham as autorizações cambiais necessárias.
Para vários compradores, o principal factor de decisão é a simplicidade do processo.
Relatos recolhidos pelo Jornal Expansão junto de funcionários da AGT, Sonangol e empresas privadas indicam que alguns conseguiram concluir todo o processo de financiamento e aquisição em menos de quatro meses, algo que muitos consideram praticamente impossível no mercado angolano.
Défice habitacional continua elevado
A procura por habitação fora de Angola ocorre num contexto de forte pressão sobre o mercado imobiliário nacional.
Segundo estimativas frequentemente citadas por organismos públicos e especialistas do sector, Angola enfrenta um défice habitacional superior a dois milhões de casas, resultado do crescimento populacional acelerado, da urbanização e da insuficiência da oferta formal de habitação.
Em Luanda, onde se concentra uma parte significativa da procura, os preços dos imóveis continuam elevados quando comparados com o rendimento médio das famílias. Ao mesmo tempo, o mercado de arrendamento também regista custos elevados, dificultando a acumulação de poupança para aquisição de habitação própria.
Especialistas defendem que a solução passa por uma combinação de medidas, incluindo maior segurança jurídica sobre a propriedade, modernização dos sistemas de registo predial, expansão dos programas de habitação social e estímulos à banca para aumentar a concessão de crédito hipotecário.
Dinheiro que sai do País
Economistas alertam ainda para outro efeito deste fenómeno: a transferência de poupanças e investimentos para o exterior.
Quando uma família angolana compra um imóvel em Portugal, os recursos financeiros mobilizados deixam de alimentar a economia nacional e o sector da construção civil angolano, reduzindo o potencial de criação de emprego e riqueza dentro do País.
“Estamos a assistir a uma situação paradoxal. Muitos cidadãos que não conseguem financiar uma casa em Angola acabam por conseguir crédito e comprar habitação em Portugal. Isso demonstra que o problema não é necessariamente a capacidade financeira das famílias, mas sim as limitações estruturais do nosso sistema de financiamento habitacional”, observou um analista do sector imobiliário.
Tendência deverá continuar
A combinação entre crédito mais acessível, maior previsibilidade jurídica e taxas de juro mais baixas sugere que a procura de imóveis por angolanos em Portugal deverá manter-se forte nos próximos anos.
Enquanto o mercado habitacional angolano continuar marcado por dificuldades de financiamento, burocracia e insuficiência da oferta formal, muitos cidadãos continuarão a encontrar em Portugal uma alternativa mais viável para concretizar o sonho da casa própria — um sonho que, para um número crescente de famílias, permanece mais fácil de alcançar fora de Angola do que dentro das suas próprias fronteiras.
06/08/2026





