O banqueiro angolano Álvaro Sobrinho volta a ser alvo de escrutínio em Portugal por causa dos bilhões que desapareceram do BES Angola

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A CNN Portugal voltou a focar-se em Álvaro Sobrinho e no desaparecimento de bilhões do BES Angola, reacendendo o escrutínio sobre um dos maiores escândalos financeiros da África lusófona.

Mais de uma década depois do colapso do Banco Espírito Santo Angola (BESA), que levou consigo bilhões de dólares, as perguntas continuam sem resposta. A CNN Portugal informou esta semana que investigadores e processos judiciais voltaram a concentrar-se no desaparecimento de enormes quantias da subsidiária angolana durante os anos em que Álvaro Sobrinho esteve à frente da instituição, renovando a atenção sobre um dos escândalos financeiros mais politicamente sensíveis da história recente da África lusófona.

Sobrinho foi presidente executivo do BESA até 2012, período em que a operação angolana expandiu-se agressivamente e tornou-se uma das áreas mais lucrativas da rede bancária do Grupo Espírito Santo. Angola vivia então um boom econômico impulsionado pelo petróleo. Os bancos portugueses perseguiam com entusiasmo tanto o crescimento do país quanto a sua elite empresarial politicamente conectada. O BESA situava-se precisamente na interseção desses dois mundos.

Quando o Grupo Banco Espírito Santo colapsou em Portugal, em 2014, os livros contábeis da subsidiária angolana tornaram-se um dos elementos mais perturbadores da ruína. Investigadores encontraram bilhões de dólares em empréstimos concedidos e nunca reembolsados. Alguns relatórios apontavam uma exposição superior a 5 bilhões de dólares. Surgiram imediatamente questões sobre se o dinheiro havia sido canalizado através de créditos irrecuperáveis, transações opacas ou mesmo desvio direto de fundos. Mais de dez anos depois, nenhuma resposta totalmente satisfatória foi apresentada.

Sobrinho sempre negou qualquer irregularidade. Argumenta que foi injustamente responsabilizado por um colapso causado por falhas políticas e institucionais muito além do seu controle. Foi absolvido em alguns processos ligados ao desastre do Grupo Espírito Santo, embora outros casos jurídicos envolvendo o seu nome tenham continuado em Portugal e na Suíça. A sua posição manteve-se constante ao longo dos anos: ele dirigia o banco, contesta a forma como os acontecimentos foram caracterizados e seguiu em frente.

Mas “seguir em frente” não foi exatamente simples. Após o BESA, construiu presença nos setores da banca privada, mídia, telecomunicações e esportes, adquirindo participações em empresas de comunicação portuguesas e no Sporting Clube de Portugal através de veículos de investimento ligados à sua rede. Também lançou o Planet Earth Institute, uma organização filantrópica voltada ao desenvolvimento científico em África. Nas Maurícias, apresentou-se como líder empresarial pan-africano, embora a imprensa local tenha acompanhado suas atividades com ceticismo. Mais recentemente, meios de comunicação portugueses ligaram-no à Operação Lex, investigação sobre corrupção judicial em Lisboa, reportando suspeitas de que teria pago a um juiz da Relação de Lisboa para liberar um portfólio imobiliário de 80 milhões de euros apreendido pelos procuradores.

A reportagem da CNN Portugal desta semana não representa um único novo desenvolvimento jurídico. Representa algo talvez igualmente desconfortável: o retorno à questão central que nunca foi claramente resolvida. Para onde foi o dinheiro e quem se beneficiou dele?

O contexto mais amplo do colapso do Grupo Espírito Santo dá peso a essa pergunta. O antigo presidente do BES, Ricardo Salgado, enfrentou vários processos judiciais relacionados com a queda do grupo. Autoridades portuguesas e suíças passaram anos tentando desvendar uma rede de subsidiárias, entidades offshore e mutuários politicamente ligados. A dimensão angolana mostrou-se particularmente sensível devido à proximidade entre as instituições financeiras portuguesas e a elite governante angolana durante os anos de prosperidade petrolífera. Críticos argumentaram na época — e continuam a argumentar — que a supervisão fraca e a influência política criaram as condições para o tipo de crédito que esvaziou o BESA.

As autoridades angolanas acabaram por reestruturar o banco, transformando-o no Banco Económico, após esforços de recapitalização apoiados por investidores angolanos e pelo Estado. A intervenção foi desenhada para conter danos mais amplos ao setor financeiro angolano num momento em que a queda dos preços do petróleo já pressionava a economia. O sistema foi estabilizado, mas a questão da responsabilização permaneceu sem resposta.

Essa questão continua a ressurgir porque a dimensão do que ocorreu no BESA assim o exige. Bilhões de dólares em empréstimos concedidos a mutuários mal documentados, frequentemente ligados politicamente, emitidos através de uma instituição que cresceu mais rapidamente do que os seus mecanismos de controlo de risco conseguiam acompanhar. A explicação institucional — de que o BESA era produto do seu ambiente — deixa em aberto se indivíduos específicos devem assumir responsabilidade pessoal por determinadas decisões e transações.

Procuradores portugueses e investigadores financeiros revisitaram transações do BESA várias vezes enquanto outros processos ligados ao Grupo Espírito Santo avançavam nos tribunais. O ritmo tem sido lento e os resultados, parciais. A reportagem desta semana da CNN Portugal sugere que essa revisão ainda está longe do fim.

O nome de Sobrinho continuará ligado a essa história enquanto as questões fundamentais permanecerem sem resposta. Ele liderou o BESA nos anos mais importantes. A dúvida que paira agora é se os investigadores conseguirão finalmente produzir conclusões específicas que vão além do que já foi estabelecido em mais de uma década de processos.

Billionaires Africa, 14/05/2026