“O Governo não está a fazer um investimento suficiente na melhoria das capacidades dos empresários angolanos”, alerta Fernando Pacheco

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O engenheiro agrónomo Fernando Pacheco considera que o Governo angolano “não está a fazer um investimento suficiente na melhoria das capacidades dos empresários angolanos”, situação que, segundo afirma, tem travado o desenvolvimento do sector agrícola e impedido que a economia nacional reduza a sua dependência das importações.

As declarações foram feitas em entrevista ao Valor Económico, na qual o especialista defendeu reformas estruturais, formação técnica e uma nova visão estratégica para a agricultura.

Pacheco afirma que há décadas Angola discursa sobre o potencial agrícola, mas falha na prática. Segundo explica, a agricultura familiar — responsável por grande parte da produção no país — permanece marcada por baixos níveis de produtividade, falta de apoio técnico e ausência de políticas públicas consistentes. “Fazem-se bons discursos, mas depois não se implementa o que é dito”, lamenta.

O agrónomo critica também a insuficiência de técnicos qualificados. Relata que, apesar de existirem institutos e faculdades agrárias, o número de formados e a qualidade da formação não atendem às necessidades reais do sector. “Os quadros formados não têm conhecimentos suficientes para enfrentar os problemas da nossa agricultura”, sublinha, lembrando que várias instituições já reconheceram publicamente essa incapacidade.

Pacheco considera que o Governo tem falhado ao priorizar investimentos avultados em consultorias internacionais e projectos de grande escala, em vez de fortalecer estruturas locais como as Estações de Desenvolvimento Agrário. Para ele, sem técnicos nos municípios, sem assistência contínua e sem coordenação entre recursos, logística e financiamento, a agricultura nacional continuará a crescer de forma lenta.

O engenheiro aponta ainda que o país não possui um “mercado funcional”, já que a importação e distribuição de equipamentos agrícolas é centralizada pelo Estado, o que distorce preços e reduz eficiência. Defende que a solução passa por políticas integradas e não por medidas pontuais. “O problema não se resolve com o ministro, resolve-se com um conjunto de políticas que têm de ser equacionadas e implementadas”, afirma.

Apesar de reconhecer que o actual Executivo tem dado maior visibilidade ao sector, Pacheco afirma que isso ainda não se traduz em melhorias efectivas. Critica a falta de avaliação dos projectos financiados pelo Estado e a não aplicação das recomendações técnicas resultantes das poucas avaliações existentes.

Para o especialista, Angola precisa investir na qualificação dos empresários agrícolas, criar condições atrativas para fixação de quadros nos municípios e adoptar tecnologias adequadas às condições do país, incluindo métodos de baixa intensidade utilizados em nações asiáticas. Caso contrário, alerta, “não é possível pensar numa agricultura de maior escala”.

Pacheco conclui que o desenvolvimento agrícola só será alcançado quando vários ministérios — e não apenas o da Agricultura — adoptarem políticas articuladas com visão estratégica nacional. “Se os ministros não respirarem agricultura, não vamos sair do mesmo lugar”, finaliza.

12/10/2025