Agricultores argumentam que o actual quadro do sector não permite que o país alcance a diversificação económica nem o combate à fome e à pobreza.
A inoperância de quatro fábricas de processamento de tomate no Namibe, Huíla, Bengo e Benguela, consideradas oficialmente como alavancas para o sector agrícola e projectadas para “impulsionar a agricultura sustentável e o processamento de alimentos tanto para o consumo local quanto para exportação”, é apontada pelos agricultores como uma das principais causas das perdas de produção e financeiras do sector.
Na generalidade, as principais perdas ocorrem por dificuldade de armazenamento adequado, falhas no transporte e a necessidade de vender o produto rapidamente a preços baixos, antes de ficarem deteriorados, sendo que uma parte do excedente é vendida aos criadores de gado, com os valores a variarem entre os 10 mil e os 70 mil kwanzas, dependendo do peso do produto.
Carlos Damião, presidente da Cooperativa dos Criadores de Gado e Agricultores do Sul de Angola, indica outros desperdícios de insumos como água, terra, energia e mão-de-obra. “Em várias regiões do país, temos estado a registar perdas consideráveis de produtos por falta de escoamento adequado. Aliado a isso, está o facto de termos registado perdas financeiras consideráveis devido à falta de centros de processamento de produtos, porque muitas vezes há excedentes e não sabemos como lidar com isso”, conta.
Para Carlos Damião, a construção de centros de processamento e armazenamento contribui para conservação de alimentos e redução do desperdício, já que os centros fazem uso de tecnologias para transformar o excedente de produção em produtos com maior duração, como sumos, massa de tomate, conservas e alimentos cujo nível tempo útil de vida é dura.
Já José dos Santos, presidente da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agropecuária de Angola, diz tratar-se de uma questão há muito necessitada pelos agricultores, e lamenta o facto de os grandes projectos de transformação de produtos agrícolas se encontrarem estagnados.
“Está tudo parado, todos os anos há sempre prejuízos que muitas vezes não conseguimos calcular. E mais: quem vende o resto da produção nunca consegue compensar os gastos com produção. Portanto, não é bom para o país que todos os anos a produção seja desperdiçada por questões que todos conhecemos”, explica, argumentando que o actual quadro não permite que o país alcance a diversificação económica nem o combate à fome e à pobreza.
Namibe, Huíla, Bengo e Benguela são as províncias contempladas com fábricas de processamento de tomate que, infelizmente, se encontram inoperantes, o que “tem contribuído para o desperdício e escassez” do produto em diferentes estações do ano.
A fábrica de concentrado de tomate, na Matala, Huíla, cuja inauguração estava prevista em 2008, precisava de uma linha de montagem de embalagens e outros equipamentos para arrancar e diminuir os excedentes de produção. A reactivação da unidade fabril, que parou nos anos 1980, foi financiada pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), em 2008, com mais de 801 milhões de kwanzas. No entanto, nunca chegou a reiniciar as actividades, apesar dos vários anúncios de inauguração.
Em Setembro deste ano, o ministro de Estado para Coordenação Económica, José de Lima Massano, prometeu, numa visita de trabalho, a recuperação da fábrica de processamento do Namibe, para dentro de seis meses, cujas operações estão paralisadas há quase 10 anos, tendo custado ao Estado 600 milhões de kwanzas.
Já a fábrica de concentrado de tomate da comuna do Dombe Grande, Benguela, com capacidade de processamento de 150 toneladas/dia, estava prevista para arrancar em Março de 2024, o que não aconteceu. A unidade, que tem em vista a transformação de tomate em massa ou polpa, viu parte considerável do seu equipamento vandalizado, como revelou, ao Valor Económico, José dos Santos. Neste momento, a empresa que ficou com a fábrica, no caso o Grupo Adérito Areias, no âmbito do Propriv, procedeu ao levantamento exaustivo de parte de danos ocorridos.
Por sua vez, a fábrica de processamento de tomate e banana, localizada no Complexo de Agro-industrial de Caxito, encontra-se em estado de abandono, segundo uma reportagem deste jornal realizada no princípio do ano. A 18 de Novembro deste ano, o Valor Económico divulgou uma reportagem, dando conta que a empresa Sociedade Angolana de Negócios e Participações, que venceu o concurso público para ficar com o referido complexo, continuasse em posse do activo, seis meses depois de o Propriv ter anunciado a vitória por decisão judicial para a restituição da unidade ao Estado.
Valor Económico, 12/03/2025





