O presidente da Sociedade Agrícola Kuolola Vinawaihe, Gonçalo Pinto, considera que a elevada pressão fiscal, a burocracia, a degradação das estradas e a insuficiência de políticas públicas de apoio à produção nacional estão entre os principais obstáculos ao crescimento da actividade apícola no Leste de Angola.
Em entrevista concedida ao jornal Valor Económico, o empresário defendeu uma maior aproximação das instituições públicas aos produtores e criticou a aplicação de recursos em iniciativas que, no seu entender, têm pouco impacto sobre a economia real. “Deveria investir-se menos em viagens ao exterior e mais no trabalho de campo e no desenvolvimento da agro-pecuária”, afirmou.
Gonçalo Pinto entende que continua a existir um distanciamento entre as políticas definidas pelo Executivo e as dificuldades enfrentadas diariamente pelos operadores do sector agrícola. Segundo explicou, os produtores necessitam de assistência técnica, melhores condições de circulação, acesso ao financiamento e maior coordenação entre os organismos do Estado.
Um dos principais constrangimentos apontados pelo empresário é o mau estado das estradas. A ligação entre as zonas de produção e os centros de consumo continua a ser difícil, sobretudo no interior das províncias do Moxico e do Moxico Leste, onde a degradação das vias aumenta os custos de transporte e prolonga o tempo necessário para escoar os produtos.
O responsável referiu, a título de exemplo, as dificuldades de circulação em troços como Luau–Malanje e Luena–Cazombo. Segundo disse, as más condições das estradas provocam avarias frequentes, aumentam as despesas com combustível e manutenção e tornam mais cara a colocação do mel no mercado.
Além dos problemas rodoviários, Gonçalo Pinto considera que a carga fiscal aplicada às empresas limita a sua capacidade de crescimento. Na sua perspectiva, uma empresa precisa primeiro de consolidar-se, ganhar capacidade financeira e criar postos de trabalho antes de suportar determinados níveis de tributação.
O empresário criticou, igualmente, aquilo que considera ser uma actuação excessivamente arrecadatória da Administração Geral Tributária. Defendeu uma revisão da política fiscal, maior simplificação dos procedimentos e a digitalização dos serviços, de modo a reduzir os encargos administrativos suportados pelas empresas.
Para Gonçalo Pinto, o aumento da pressão fiscal pode produzir um efeito contrário ao pretendido pelo Estado, ao reduzir a capacidade das empresas para investir, contratar trabalhadores e expandir a produção. Esta situação, acrescentou, acaba também por limitar, a médio prazo, a própria capacidade de arrecadação pública.
Outra dificuldade apontada é a falta de uma política integrada para o sector agrícola. O presidente da Sociedade Agrícola Kuolola Vinawaihe considera que as instituições do Estado trabalham, muitas vezes, de forma pouco articulada, o que dificulta a implementação de projectos e a resolução dos problemas enfrentados pelos produtores.
O empresário defendeu ainda uma maior intervenção do Ministério da Agricultura e Florestas na assistência aos produtores, na fiscalização do mercado e na criação de condições para o desenvolvimento das cadeias de valor. Na sua opinião, não basta incentivar a produção sem garantir estradas, financiamento, assistência técnica, transformação e canais de comercialização.
No mercado do mel, Gonçalo Pinto manifestou preocupação com a comercialização de produtos importados ou sem informação clara sobre a sua origem. Segundo afirmou, existem marcas cuja rastreabilidade não é devidamente apresentada ao consumidor, situação que pode prejudicar os produtores nacionais e criar concorrência desigual.
O responsável defendeu, por isso, maior fiscalização por parte das entidades competentes, bem como a aplicação de regras de rotulagem que permitam identificar a origem do produto, o local de processamento e a entidade responsável pela sua comercialização.
Para o empresário, a produção nacional de mel possui condições para crescer e chegar aos mercados externos, mas continua limitada pela falta de uma estratégia pública consistente. A certificação, a rastreabilidade, a assistência aos apicultores e o apoio à exportação são, na sua perspectiva, fundamentais para transformar o potencial existente numa actividade económica de maior dimensão.
Gonçalo Pinto alertou também para os efeitos da desflorestação sobre a produção apícola. Explicou que a destruição das florestas reduz a disponibilidade de plantas e flores necessárias à alimentação das abelhas, colocando em risco a sustentabilidade da actividade.
Apesar dos constrangimentos, o empresário considera que o Leste de Angola reúne condições naturais favoráveis para produzir mel em quantidade e com qualidade. Contudo, entende que esse potencial apenas poderá ser aproveitado com maior presença do Estado no terreno, melhores infra-estruturas, políticas fiscais mais ajustadas e medidas concretas de apoio aos produtores.
15/07/2026





