A utilização de garantias públicas suíças para apoiar projectos da Mitrelli em países africanos está a gerar críticas por parte de organizações da sociedade civil e especialistas em governação, que questionam a aplicação de recursos estatais em mercados marcados por riscos políticos, fragilidades institucionais e problemas de transparência. Em causa estão projectos desenvolvidos pela empresa em Angola e no Senegal, beneficiários de garantias avaliadas em cerca de 212 milhões de dólares.
Segundo uma investigação do jornal Expansão, divulgada na edição desta sexta-feira, a polémica surgiu após uma reportagem publicada pelo semanário suíço WOZ Die Wochenzeitung, baseada em trabalho do colectivo de jornalistas independentes WAV. A investigação revela que dois projectos da Mitrelli, em Angola e no Senegal, estão protegidos por garantias emitidas pela SERV, agência pública suíça de seguros de crédito à exportação, num montante de 168 milhões de francos suíços, equivalentes a cerca de 212 milhões USD.
A SERV tem como missão apoiar empresas sediadas na Suíça através da cobertura de riscos que o sector financeiro privado evita assumir, nomeadamente riscos políticos em países com baixa classificação de crédito, instabilidade governativa ou fracos mecanismos de prestação de contas. Embora a instituição seja financiada por taxas e prémios cobrados às empresas beneficiárias, eventuais prejuízos são, em última instância, suportados pelo Estado suíço.
A investigação destaca que a Mitrelli, grupo fundado pelo empresário israelita Haim Taib e com sede em Frauenfeld, beneficiou não apenas do acesso a estes instrumentos financeiros, mas também da reputação associada à praça financeira suíça. O grupo afirma ter investido quase 9 mil milhões de dólares em projectos de infraestruturas e desenvolvimento em África, abrangendo sectores como abastecimento de água, educação, saúde, agricultura e construção de estradas.
No Senegal, um dos projectos apoiados é o Agropole Ouest, um empreendimento agrícola que a Mitrelli considera transformador para a região de Thiès. Contudo, organizações de agricultores e representantes da sociedade civil criticam o modelo, argumentando que promove a industrialização da agricultura familiar e aumenta a dependência dos pequenos produtores em relação a cadeias de valor controladas por grandes empresas.
As preocupações não se limitam ao Senegal. Na Costa do Marfim, uma subsidiária da Mitrelli enfrenta um processo judicial relacionado com alegações de desvio de fundos públicos e branqueamento de capitais, num caso ligado a um contrato de abastecimento de água avaliado em 177 milhões de dólares. Empresas locais envolvidas no projecto denunciaram atrasos nos pagamentos e dificuldades operacionais.
Em Angola, a influência do grupo tem crescido de forma significativa ao longo dos últimos anos. A investigação recorda que a Luminar Finance, braço financeiro ligado ao universo empresarial de Haim Taib, detém cerca de 2,3 mil milhões de dólares da dívida externa angolana, o equivalente a aproximadamente 5% do total. Segundo o WOZ, o modelo de negócio da Mitrelli em Angola assenta frequentemente na concessão de financiamento ao Estado, associado à adjudicação de contratos públicos à construtora.
A reportagem suíça cita ainda especialistas que alertam para a necessidade de avaliações mais rigorosas em matéria de direitos humanos e impacto social nos projectos apoiados pela SERV. Peter Bosshard, membro do conselho da Amnistia Suíça, considera que as consultoras encarregadas dessas análises enfrentam conflitos de interesse, uma vez que dependem dos contratos atribuídos para realizar os estudos.
A controvérsia surge num momento em que cresce o escrutínio internacional sobre os mecanismos de financiamento ao desenvolvimento e sobre o papel desempenhado por empresas privadas em países africanos fortemente dependentes de financiamento externo e da exportação de matérias-primas.
19/06/2026





